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Coolio

Coolio

Já tava quase marcando cinco horas da madrugada, havia tomado meu remédio, e na escuridão do quarto, coloquei um Coolio pra tocar em meio aos roncos do meu irmão na cama ao lado.

Meu travesseiro tava meio gelado e úmido com algumas lágrimas que rolaram por ali uns minutos atrás.
As vezes a gente se pega pensando como chegou até aqui. Vinte seis nas costas, um dia das mães chegando, um aniversário de vinte e um do mano e um ano de morte da sobrinha. Desempregado, ainda preto, ainda pobre, com vários remédios entupindo os pensamentos e o sangue. E tá la. Ainda viado, numa punheta pensando em macho antes de dormir e escondendo o desejo de não ser mais solitário pra esquentar o pé sempre frio nesse gelo de um outono que mais parece inverno.
Sei lá. As vezes a gente né?
Como a vida faz a gente migrar de dor em dor, e vai cansando e fazendo a gente entrar em exaustão. Nos nos pegamos tentando a todo custo não sentir pena de nós mesmos, por que sabe que isso não é justo com a gente e com a galera que sofre até mais. A galera que nem um teto as vezes tem na cabeça.
É foda pensar que ao contrário da maioria, nunca tive a fase que me achei imortal. Não tive aquela adolescência de combate e coragem. Porra ainda as vezes corro de umas baratas no banheiro ta ligado?
Minha vida até aqui foi show. Foi vivida. Sentida. Mas parece que nada ficou. Não reteve. Substancialmente sabe Qualé?
Vem umas crises de resistência por aí. Uns pensamentos meio errados. E encarno personagens que nunca vou atuar. São cantores e atores. Revejo uma identidade do gueto inspirado pelo som que meto no repete exaustivamente até absorver o que a letra ta falando. Mesmo em outro língua. A palavra tem poder.
E então escrevo uns rascunhos, respiro fundo, vou olhar no espelho com a cara de criança e o cabelo de pé. Olho vermelho e estanco o nariz que escorre. Chega por hj.
Pego um café frio, deito de novo. Ponho a mesma música.
E sei que daqui uns vinte muitos vou estar dormindo e sonhando com algum vulto, com perseguição ou simplesmente com alguma coisa boa demais para a consciência me deixar lembrar quando acordar. E o dia se repete entre cansaços só de estar ainda vivo. E isso já é um trabalho do caralho. Se eu chegar aos vinte e sete, será que consigo olhar pra trás e relembrar essa época quando tiver o avesso desse número? Sei não. O futuro é buraco negro que não tem como eu distinguir ou saber o que tem.

Mas, o mais frustrante mesmo dessa noite fria quase amanhecida, é pensar que vou postar esse texto para ninguém ler. Que vou acordar e esquecer que esqueci. Que vão achar um qualquer sem rosto, que tudo é ficção que está aqui. E que em segredo por fora, o mundo parece me ver como guerreiro merecedor de aplauso e orgulho. Quando tudo que eu mais queria é feito criança, que algo mudasse e o dia trouxesse tudo novo, melhor e com menos peso ou dor.

E as porras das lágrimas caem mais um pouco nessa merda de travesseiro. Foda mano.

Nasci preto. De pais pretos. De família majoritariamente preta.
Ascendências diversas, desde europeias, a latinas e norte americanas.
Na certidão de nascimento, esta estampado um pardo indecente.
Nasci com pele preta. Mas, demorei para me enxergar e identificar como negro.

Na escola, desde a infância ate a adolescência, a maioria dos meus colegas e amigos tinham pele clara, narizes retas e pequenos. Bocas finas e retas. Eram loiros ou de cabelo moreno e castanho. Havia uns ruivos. Todos bem semelhantes, de olhos claros. mesmo quando o olho era escuro, a pele ainda exalava aquela alva. Os pelos, do cabelo as barbas dos amigos do banco onde meu trabalhou certa vez, ate aos amigos de quando trabalhou como corretor da Bolsa de Valores, eram lisos.
Os cabelos das amigas da minha mãe também. Cabelos compridos e lisos. De mamãe também eram lisos, mas a raiz era como meus cabelos e de papai.

Fios enrolados, grossos. Papai me levava para corta-los, uma vez a cada duas semanas.
Meus amigos de pele clara cortavam uma vez a cada vários meses. Mas, ainda sobrava cabelo na cabela deles. Na minha não. Papai dizia que não podia, ficava feio. Tinha que ser careca ou com a maquina 1. Bem rente. Porque eu tinha cabelo ruim.
Na escola, sempre que passava alguma semana sem corta-los e os cabelos começavam a aparecer, enrolados e grossos e bem armados, zombavam.
Na adolescência, papai era vendedor de apartamentos e mais tarde havia perdido o emprego. Não podia pedir mais para ele dinheiro para cortar os cabelos. As vezes, não dava. Ficava com ele grande mesmo. Dai, para esconder eles, usava boné. Tinha muita dor de cabeça nessa época. Dias de calor. Sempre de boné. Não podia tirar. porque se eu tirasse, ririam. Falariam para eu ir fazer uma chapinha no cabelo ruim.
Ele devia ser mesmo ruim, já que era o motivo de me fazer chorar sempre que olhava ele no espelho – eu pensava.

Quando a puberdade surgiu, notei que meu interesse pelas outras pessoas crescia – afetivamente e sexualmente-. Mas, nas novelas, na ‘Malhação’ e na ‘Chiquititas’, os únicos meninos para quem as meninas olhavam eram os que pareciam com meus amigos e colegas de classe. Com meus professores. Com o chefe do papai. Com o policial da frente da escola. Eram sempre meninos de pele clara. Cabelo liso e natural. Não alisados como o da mamãe. As meninas também. As bonitas sempre eram as de olhos claros. Loiras de cabelos compridos. As de cabelo ruim que nem da mamãe, que usavam chapinha, não tinham muitos namorados não. Só as que conseguiam usar um creme que queimava a cabeça delas e deixava os cabelos delas muito bons. Lisos.

Nessa época, não entendia porque eu tinha que ter nascido assim, preto. De nariz largo, de pele grossa. De cabelo ruim e duro. De boca grande, e beiço carnudo. Queria ser normal. Queria ser que nem meus amigos e amigas. Queria ser como minhas professoras. meus heróis dos desenhos. meus personagens preferidos das novelas e dos filmes e series que eu adorava. Que nem os apresentadores da tv. Que nem os autores dos livros que lia. Quem as pessoas que eram felizes e não perdiam seus empregos. Que nem os chefes do papai. Queria ser branco.
chorava por isso.
Cresci.

Ensino médio, faculdade – através de cotas raciais e bolsista através do Enem por ter pouca renda per capita -. Trabalho.
E finalmente olhei no espelho – já com a pele não tão preta, mas morena de todo o sol que não tomava, de cabelos lisos pelos tratamentos que me queimavam para dominar o volume e sua enrolação descompassada, de figurino e linguagem e ideologias iguais a da maioria ‘descolada’ e ‘popular’ a minha volta, amando filmes americanos e a cultura europeia – e notei algo diferente.

A imagem no espelho não me incomodava mais.

Por que estava começando a perceber que a pele era preta, mas não tinha nada de feio ou ruim nisso.
Pesquisa, conhecendo pessoas bolsistas como eu, periferia da qual sempre fui mas nunca olhei, filmes africanos, e nacionais. Historia brasileira que iam alem dos Reis e rainhas de Portugal. A origem do rock, do blues, do jazz, do samba que tanto me identificava e gostava. Ver que teve um preto antes do que chamam de rei do rock. Ver que o blues era ferramenta de resistência preta. Notar a miscigênia mesmo nos amigos de pele clara.
Nota que realmente sou diferente. Mas, não anormal. Um outro tipo de diferente.

Passo a entender por que mamãe achava que precisava alisar os cabelos para ser considerada bonita. Porque papai me obrigava a esconder o cabelo que os outros chamavam de ruim. Por que não havia representação da minha pele na novela, no jornal, no programa de auditório, na policia, no banco, no bairro onde vendem coisas caras.
Por que minha mãe sempre surtava tanto se eu saísse de casa sem o RG e voltasse tarde da noite, quando as ma~es dos meus amigos – de pele clara – não surtavam tanto assim como ela.
Porque quando as coisas estão ruins, as pessoas falavam que a coisa tava preta.
Pesquiso mais, conheço mais pretos. Estudo, estudo. Conheço e conheço. Questiono e questiono.

E finalmente deixo de ser só um guri preto.
Mas, passo a ser um guri negro.

Consciência é diferente de existência.
Sou preto, por que existo e nasci assim. Nunca deixarei de ter essa cor. É uma característica, como altura.

Mas ser negro, é ter consciência do que ter essa cor preta significa. Na rua, no trabalho, no bolso e na carteira. Na historia. Na sociedade.
É ter consciência do por que somos todos humanos, da mesma especie, mas somos diferentes na cultura e legado que carregamos, simplesmente por ter a cor repleta de melanina.

Ser negro é compreender que há uma historia de luta, de resistência, de crimes, de injustiças, de sangue e apagamento de voz e de identidade de centenas de anos de negros sem nome e sem imagem.
Consciência Negra é ter consciência de quem se é.

Pra quem é branco, é aprender a exercitar o respeito a essa consciência que foi massacrada mas, que ainda existe e é forte.
Consciência de que não existe igualdade, sem que haja antes justiça, empatia, respeito e se entenda quem se é e de onde veio.

Eu: Humano Preto de Pele
EU: Humano, Preto de Pele e de Consciência Negra. ‪#‎ConsciênciaNegra‬‪#‎Pretitude‬ ‪#‎Negro‬ ‪#‎BlackPower‬ ‪#‎NiggaPower‬

Nova velharia

Hoje vi pessoas velhas. Velhas De pele enrugada. Velhas de ancas travadas. Velhas de mãos rabugenta de pescoço ancorado.
Hoje vi velhas e bebês. Bebes de colo e de útero. Bebês fedendo a leite e fralda abarrotada. Bebes de pele macia e alva. De dedos gorduchos e curtos. De olhos curiosos e arregalados.
Hoje vi começos e finais. Contrastes do que fui e do que vou chegar. Opostos tao semelhantes em lances emblemáticos que me fizeram pensar na fragilidade e destreza do que é estar aqui. Vivo e viver. Vivo, esperar e crescer. Esperar e correr. Esperar…
O que é envelhecer e temer ou aguardar com café quente o final enquanto outro ciclo se inicia à espera das rugas e amassados pelo caminho…
Hoje vi o futuro… Encapado de passado…

Café da manhã

“Eu sonhei com você. Café com leite e peras carameladas cortadas em cubos pequenos.
Na mesa, dois ou três copos a espera de preenchimento -,como eu. Eles por líquido, e eu pelo mesmo -,o de você.
Na cadeira arqueada sem acolchoado, sua coxa rota, sua marca no pé calejado esquerdo e sua tatuagem gasta pelo tempo nas costas nuas.
No soalho de duas cores, meu joelho arqueado, posto em horizonte sem sangue, onde este se faz morada no membro rijo menor que o seu.
Na boca, saliva quente, matinal de Inhaca, sorvendo cada esquadro de pele fina, pêlo grosso, e circunferência bruta do cogumelo de testosterona maior que o meu.
Minha mão morena que mal lhe cabe, mas preenche.
Minha lingua larga, quente mas que não lhe queima.
Sucção que não cessa na refeição prometida em contração involuntária pela popa sem navio.
Olhos castanhos que tomo e resguardo no semblante a espera do gozo que logo vem.
É café da manhã, matina cotidiana onde sorvo; ( e só sonho) você.”

(…)
“E poderia
E ate daria
E saberia
Viveria
Amaria
Brigaria
Choraria
Ate mesmo prazer-ia
E cansaria
Voltaria
Renovaria
Descobriria
Diria
Pensaria
Seria e diria
Todos os dias beijaria
Mas não pôde…
…e poderia…”

TAP TAP TAP

Era a mesma batida – TAP TAP TAP …

Continuamente martelando de som abafado as paredes do quarto de hotel.

Nos bolsos, ele trazia um pouco da seda do dia seguinte e um tubo meio duvidoso do que ele já nem tinha certeza do que era.

A noite anterior fora de tiros e tragos, bocetas arregaçadas, pernas peludas, dedos torcidos e seu pau flagelado.

Nada de orgia, apenas mais uma noite de quinta feira pós balada noturna, pós after executiva e pós sentido de encarar cansaços de vida que não lhe comportavam mais.

Desde criança ele aprendeu a se dopar para não dosar-se.

Limites não lhe apareciam. Convenções não lhe agradavam.

Seu mundo era de escape. Na arte sempre buscou refugio de se suportar. Pois ele não era um estranho a si mesmo. Ele não se perdia.

Ele só buscava equilibrar um meio de se aguentar diante de cada falha, sombra e vergonha que possuía.

Já foi escroto na missão de arianizar seu mundo. Já foi fácil, na ânsia de inflar seu ego e recompor seu corpo.

Tentou por anos, ir na contrapartida da vida que nasceu, e tentar morfalizar a própria identidade. Ser negro, amarelo, rabino. Não conseguiu.

Hoje, nada mais de experimentações.

A cada quinta feira, ele decide por si só acordar, bater sua punheta matinal sagrada – seu pau era seu pastor e com fé nele, nada lhe faltaria; assim rezava, assim seguia.

; – tomava um banho demorado e quente enquanto travava com lentidão sua seda, pouco a pouco umidecida e queimada pela erva que lhe transcendia.

Pela tarde, marcava orgias, talvez em dias de frio, apenas um par de seios e um rabo de macho empinado serviam;

Uma gozada, talvez três… Algumas marcas e uns tiros do pó branco fiel, e a noite estaria pronta para ele (,nunca ao contrário).

Mas naquela quinta feira a noite não o viu. As bocetas e cus rosados sim, mas a noite não.

Naquela quinta feira seu entorpecimento foi de flagelo e não curtição.

Porque entre os paus e seios daquela orgia, um par de pernas e pêlos, lhe pregaram na cruz que nem lembrava mais que existia.

Naquela boca de carne e mordidas, ele reencontrou a perda de sono e preocupação pelos dias.

Naquela bunda distinta ele reconheceu o gozo sem ego.

E naquele gemido e olhar, ele se lembrou do que era ser de fato visto e não apenas desejado.

Naquela quinta feira, ele morreu na cruz torta que sempre relutou em aceitar.

Nada que o preocupasse, afinal  sua sexta já estava prometida com Jack e José que já lhe sorviam de encosta e sussurros.

E se ele realmente tava começando a querer o que sempre achou proibido para os olhos de seu mundo? Foda-se.

Ou melhor: foda-a.

A única coisa que lhe incomodava mesmo era aquela batida abafada de saco batendo em coxas suadas.

O saco era seu, a vadia ele nem sabia quem era… Mas mesmo assim; aquele TAP TAP TAP já estava lhe tirando do serio.

Gozou sem sentir.

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‘’Lado de Lá’’, faixa 5 cronologicamente falando do novo disco de Pitty, e terceira a ser liberada antes do lançamento oficial do novo álbum da  Banda (SETEVIDAS) – previsto para a próxima terça feira dia 27 de maio em mídia digital e 3 de junho mídia física; é um verdadeiro Ode aos que partiram. Uma marcha fúnebre rocker repleta de elementos que aludem às homenagens do candomblé a seus deuses e pontualmente assim, repleta de psicodelia e um requinte ‘assombroso’ de inspiração na discografia da banda.

‘’Lado de Lá’’ sem exageros pode já ser considerada uma das melhores faixas da carreira da cantora, mesmo antes de termos escutado todo o novo trabalho. A arte nunca deve ser avaliada separadamente, ainda que ela deva se sustentar individualmente. Porem é impossível não admitir e reconhecer o primor que ‘’Lado de Lá’’ possui, seja por sua letra melancólica, mas sensível ao ponto de emocionar, falando sobre o rito de passagem daqueles que por escolha ou consequência partem do nosso mundo – vida – cedo demais rumo ao desconhecido – morte. Seja pelo arranjo e sonoridade, da qual foi gravada totalmente em base ao vivo com todos instrumentos tocados juntos.

A letra versa em metáforas e metonímias sobre o tentar compreender essa perda de alguém que cometeu suicídio; clara alusão já admitida a recente morte do ex-guitarrista e amigo pessoal de Pitty e Banda Peu Sousa falecido em 2013, após cometer suicídio. Ano passado ainda tivemos a morte também de Lou Reed de quem Pitty sempre foi admiradora, e cuja canção também flerta em sua homenagem.

Por este motivo ou não, a faixa possui tal requinte de mesclar a psicodelia com uma extravagância e peso incomum na discografia da banda, talvez flertada apenas no projeto paralelo ‘Agridoce’ em que a cantora embrenhou-se em meados de 2011 ate 2013 com seu atual Guitarrista da banda; Martin Mendonça.

Mas nem no projeto paralelo, e nem mesmo no álbum antecessor de Setevidas; Chiaroscuro, tal psicodelia jamais foi alcançada apesar de já ter sido pretendida.

Em Chiaroscuro, tínhamos ‘A Sombra’, fruto da característica mais forte do album – a experimentação -, ela possuía diversos elementos dissonantes em si mesma, o que causava uma certa sensação, mas que não era de fato uma consistência. Faltava o controle de colocar a psicodelia não como uma emaranhado de elementos, mas sim como um propulsor a mais na ‘narrativa’ da   faixa. No Agridoce, tínhamos ‘O Porto’ que buscava isso também, mas se apegava as sobreposições e delays, que chegava perto, mas não conseguia ainda chegar no patamar pretendido. Antes disso, ainda em 2005 com o álbum ‘’Anacrônico’’, tínhamos ‘Querer Depois’ onde esse flerte psicodélico e experimental já denunciava  o potencia de cantora e banda para tal.

Porem somente aqui em ‘Lado de lá’ o resultado é satisfatório e pleno. Há um controle vocal que flerta com o blues e o jazz, uma mistura de instrumentos típicos do candomblé como o Quissange, Caxixi e Balafon (aparentemente) mesclado sutilmente a um piano repleto de graves, riffs de guitarra em tom menor, distorções de baixo, e uma bateria firme, com piano em escala cromática* que nos remete diretamente a marchas fúnebres, mas sem cair no peso melancólico de acabar com o ouvinte. Pelo o contrario, a faixa nos brinda com um final épico, crescente que estoura em um coral repleto de gritos, urros, que nos lembra os cânticos antigos culminando num concerto de roque brutal com quase 2 minutos de duração somente instrumental onde qualquer release é insuficiente para passar a sensação do que isso causa.

A faixa assim consegue emocionar, desestruturar, impressionar, criar catarse e ainda assim sensibilizar pelo trabalho redondo que consegue ter.

Há referencias a sonoridade típica de QOTSA, um ‘quê’ de Muse mas uma base certeira de alusão a Faith No More. Quanto à letra, há uma inspiração de composição na historia mítica grega de Caronte que levava as almas do porto da vida para o outro lado em uma espécie de barca.

‘Lado de lá’ assim, desse lado mesmo; nasceu Obra. Empolgou e aumentou a expectativa pelos dias 27 de maio e/ou 3 de junho no qual finalmente desvendaremos os segredos que guardam as ‘’Setevidas’’ contadas dessa vez pela roqueira que sim, de fato voltou!

É dar play, aumentar o som ate o ultimo volume, colocar os fones OBRIGATÓRIOS, e se deixar embarcar para esse lado da PITTY banda que parece ter vindo para realmente suprir todas a vidas que esperávamos poder gastar.

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Escolheu deixar tudo aqui, sumir daqui

Pra onde nem sei

Mas espero que sim

Se arrancou, e partiu daqui, e levou de mim

Aquele talvez

Rir de tudo no fim

Talvez pudesse resolver (quem vai saber?)

Quem sabe a dor venceu?

Pra quê essa pressa de embarcar

Na jangada que leva pro lado de lá?

Bagunçou tudo em volta assim, e não volta mais

Nem pra ver

Que era grande demais

E o silêncio, o imenso silêncio que atravessou

Domingo de sol

E eu chovi sem parar

E num rompante sem pesar (como aceitar?)

Impôs a decisão

Pra quê essa pressa de embarcar

Na jangada que leva pro lado de lá?

Aceno da margem

Ao longe o barco vai, até mais!

Guarde pra mim um bom lugar

 

*Chamamos de cromática a escala de 12 sons criada pelos ocidentais através do estudo das frequências sonoras. A escala é formada pelas 7 notas padrão da escala diatônica acrescidas dos 5 tons intermediários

No piano, tocam-se todas as teclas (brancas e pretas, sem pular nenhuma) melodicamente.

 

Uptade: Texto sobre ”Lado de Lá” de autoria de Arthur Farias segue abaixo:

 

Alguns cigarros, muitas dúvidas e a certeza de que, mesmo se fosse possível retornar a um determinado momento do tempo, as coisas não voltariam a ser como antes. De volta ao universo das hipóteses, em uma das infinitas realidades possíveis, imagine a seguinte história: Filho de um deus com uma mortal, ou algo do tipo. Um semideus dividido entre as virtudes que um homem comum não conseguiria atingir e uma complexidade psicológica, social e ética inerente ao ser humano. Ora poderoso com suas armas nos campos de batalha, ora humanamente vulnerável em uma vida que cabia guardar para si. Ao mundo, restava a dúvida quanto a sua mortalidade. Cansado ou não, e sabe-se lá o porquê, decidiu descobrir o que viria depois. Deixou um legado e certamente também deixou pessoas que o amavam, e aqui o verbo “deixar” tem sentidos diferentes.

A história poderia ser sobre algum herói grego, uma sinopse de um filme épico, ou até mesmo sobre qualquer outra pessoa que cometeu suicídio… e talvez seja um pouco de todas, cada qual a seu tempo. Se a arma de guerra for uma guitarra e o campo de batalha for um palco, então… déjà vu. 


Tudo isso para dizer que Pitty, em seu novo disco “SETEVIDAS”, fez uma das melhores músicas pra quem gosta de coisa triste. Posso afirmar que faz tempo que algo não me toca como “Lado de Lá” me tocou. Inicialmente uma balada de piano, a música vai crescendo e termina de maneira virtuosa. Trata-se do suspiro remanescente, ou ao menos emulado, de um sentimento que existia no Admirável Chip Novo e que deixou marcas no Anacrônico. A letra é sustentada por um “Outro” (com “O” maiúsculo mesmo) que formula hipóteses centradas na alteridade com o “eu-individual” que já não se faz presente.

Agora, cá pra nós, “Domingo de sol e eu chovi sem parar”? Se “chuva” aqui é a metáfora para as lágrimas, então, chuva agora.

Com uma pegada Queens of the Stone Age, “Lado de Lá” pontua o final do Lado A do vinil de “SETEVIDAS”, álbum que será lançado em 03 de Junho de 2014. Se as outras músicas carregarem sensações parecidas, estamos prestes a ouvir o disco nacional de maior peso das últimas décadas.

Câmara de Ecos

“Era a terceira vez que ele se metia naquela situação. Pela mesa dois ou quatro restos de nada do que sobrou de tudo aquilo que tentava compor. Letras dispersas, mas em sua maioria e montante papeis amarelados e amassados com frustração.

Nem seu piano fiel escudeiro e doutor das horas de caos, estava lhe dando ouvidos ou vindo em seus ouvidos. Seus dedos hoje só serviram para chapinhar algumas gotas de chocolate derretido no micro-ondas da pequena cozinha solitária de duas geladeiras e uma mesa de centro – duas geladeiras pra que? Ate hoje se perguntava- mas era um bom lugar para esconder sua maconha barata a 2, 50 a ripa.

Aquela manhã em particular sem pássaros no ar e sem carros no asfalto a lhe assobiar e assaltar os ouvidos apurados, ele não se libertava em punhetas ou masturbação. Nem mesmo sua maconha tão medicinal quanto suas aspirinas e sua água com açúcar conseguiam lhe dar calma.

Alguma coisa o incomodava e ele sabia o que poderia ser, o que deveria ser, mas não era.

Tantos compromissos, tantas obrigações, tantas projeções, tantos problemas lhe batendo a nuca sem parar, seu coração cada vez mais egocêntrico a lhe brincar e zombar eram motivos suficientes para sua sensação de perda, desamparo e frustração. Porem, sem saber como, ele sabia ainda assim que nada disso era ou eram os motivos ou as causas de sua perna esquerda inquieta sem compasso, ou de seus vinte e três cigarros, um menos que o numero de sua idade, tragados naquela ultima hora sem realmente terem sido absorvidos ou aproveitados.

Algo não estava correto dentro dele, mas o que?

Desatou a rir sozinho no cubículo que chamava de sala de estar. Errado… O que em sua vida fora certo alem da compra daquele piano afinal?”
(…)
“… era incessante aquele sentimento. Antes pudesse silenciar aquele vazio como silenciara tantas outras coisas ao longo de sua vida miserável.”

O som da geladeira na pequena cozinha torta de piso desnivelado não ajudava em nada. insonia apos insonia e a companhia do medo de sabe se lá o que; lhe martelando feito bate estacas a todo instante.

Ja não conseguia mais escrever. Suas ideias e seus sonhos, quando não pesadelos e alucinações, pareciam divergir entre eles. Não havia sentido em nada, nem no seu estupor de ver seu mundo desmoronar sem contudo ter a minima vontade nem mesmo de gritar ou chorar como deveria ou como sabia que deveria.

Os dias se arrastavam e nada se resolvia. continuava ali parado mas sem permanecer estático se movia, suava; mas continuava parado. A inercia o levava e não mais as vontades ou as pernas sofridas e de pêlos negros sobre as calças abarrotadas.
(…)
Mantinha a cruz da porta virada, não que tivesse vergonha de si mesmo. Mas o santo não lhe exitava, preferia pernas mais grossas.

Fugia de qualquer aproximação de redenção por algum UM que lhe avistasse. Não era o correto e disso sabia. Pena de quem machucasse para evitar assassinar e se suicidar. Preferia assim. Sem amarras, sem ter com quem se importar ou perguntar sobre seu dia, seja no fone ou na carta. Preferia diversão com leveza, talvez paixonices e rolos de um mês. Experimentar.

Mas no momento em que o porre do “sentir necessidade de se justificar ou se importar” viesse aportar em sua cabeça semi raspada, fugiria, calaria, treparia com um OUTRO igual qualquer.

Não se sentia um anti nada, mas messias era demais para sua percepção de mundo. So não engordava e criava barba por que a natureza não permitia.

A tela do computador o hipnotizava, tal qual as musicas cabalísticas que escutava. Tal qual os textos sem gramatica que escrevia, tal qual os desenhos sempre levianos ou abstratos que rabiscava. Tal qual os filmes dissecados e “marginalizados” que sorvia como se fossem fragmentos de seu próprio gorfo. Brincando de se identificar e de se chocar e gostar.
(…)
“A fumaça inalada adquiria tons de filmes noir, que sempre gostara.

Insonia era sua vagabunda preferida. Zombava-o, acariciava-o e fodia-o todas as noites. As vezes também o abandonava, rejeitava; mas era raro. Eram amantes fieis.

A espera de mais uma tosse seca, uma alucinação e um braço dormente, ele repousou a cabeça sobre a ponta do tapete puído da sala.”
(…)
”Guarde suas dobras de papel para um outro origami
não é mais comigo que estarão suas colas e dobraduras, seus rabiscos e suas marcas
Não fui feito de seda para você esfregar suas carnes entre meus panos
E não fui feito de pedra para você me apunhalar e querer polir as suas vontades
Não, não sou feito de papel para você me rasgar e cuspir um Te amo, sem o “Eu” implícito
Não, não sou seus ponteiros para você me adiantar e atrasar, me esperar e parar a hora que seu querer quiser
E guarde suas exclamações, guarde ou jogue fora pois aqui nessas gavetas você não entrara mais.
“quem disse que eu preciso de você para ser feliz?””
(…)
E entre tais percepções do sono que nem viu chegar, brincou de fingir-se adormecer com um sussurro nos ouvidos:

“A Memoria é uma ilha de edição. Uma Câmara de ecos. ecos… ecos… os…”

Trechos compilados num único texto de “Padê”, “No Vale das Sombras”, “Origami” e “Piano” de minha autoria (Will Augusto).